Algumas palavras sobre "Farol invisível" farol-invisível, documentário, curta-metragem

por Bruna Callegari

Farol Invisível
Farol do Jaguaré, construído na década de 1940, no ponto mais alto do bairro, próximo à confluência dos rios Pinheiros e Tietê, em São Paulo.

Estive pela primeira vez no Farol do Jaguaré em 2004. Logo que o avistei, fui imediatamente tocada pelo imaginário que circunda esse tipo de construção. Geralmente, é belíssima a implantação física dessas torres luminosas em pontos extremos, quase sempre solitários e hostis. Os faróis remetem ao universo das incertezas e do perigo. São também marcos de força e resistência, iluminação espiritual, esperança e inspiração. Vejo dessa forma o Farol, mesmo estando fincado em plena aridez da metrópole de São Paulo.

Construído como parte de um ambicioso projeto urbanístico para a cidade de São Paulo promovido pelo urbanista Henrique Dumont Villares no início da década de 1940, instalado sobre o ponto mais alto do bairro do Jaguaré, na proximidade da confluência dos rios Pinheiros e Tietê, o curioso torreão suscita muitas perguntas acerca de sua existência e habita o imaginário dos moradores locais. Teria realmente guiado a navegação em São Paulo?

Hoje, praticamente invisível na paisagem paulistana, o Farol do Jaguaré parece reforçar uma dinâmica urbana que frequentemente tem marcado a fisionomia das cidades contemporâneas. As sucessivas práticas de remodelação dos territórios urbanos, impulsionadas pela urgência da produção e circulação capitalistas, resultam frequentemente na demolição de centros antigos, na descaracterização e esquecimento de bairros inteiros, na transformação de monumentos em enigmas simbólicos e no crescente esvaziamento dos espaços públicos.

Como o Farol do Jaguaré, outros remanescentes obsoletos restaram como marcas impressas na paisagem do bairro – a antiga ponte, os silos industriais, os trilhos de trem –, deixados por ações ocorridas em tempos passados: formas que produzem conflito entre o novo e o antigo.

Farol Invisível
A antiga Ponte do Jaguaré, invisível entre as duas pontes novas: uma exuberante vegetação cresce selvagemente no local.

É inegável que haja um evidente tratamento de descarte desses vestígios do passado nas cidades atuais, em especial velhas fábricas, trilhos desativados, galpões ou sítios históricos em decadência, frequentemente soterrados, demolidos ou simplesmente varridos do território urbano para dar lugar a novas formas de produção do espaço.

Contudo, espaços como o Farol, que estão à margem da lógica produtiva da cidade, expectantes de novos usos e sentidos, permitem-nos entrever variados desafios arquitetônicos, imobiliários, territoriais e paisagísticos da cidade contemporânea. Acabam sendo redutos de liberdade, identidade e memória para os habitantes locais. Atravessam os diversos tempos da metrópole, evidenciando descompassos e fraturas do tecido urbano, questionando as disputas de interesses, prioridades de investimentos e fazendo emergir os devires sonhados para a cidade.

Atualmente, embora tenha sido reconhecido pelo Conpresp como patrimônio histórico de São Paulo em 2000, o Farol do Jaguaré encontra-se fechado ao livre acesso do público. Visitas precisam ser agendadas com antecedência junto à Associação de Amigos do bairro (SAJA), mas praticamente não há procura. Seu potencial como aparelho cultural da cidade, dentro de um projeto maior de valorização da paisagem e de problematização do modelo urbanístico, vem sendo ignorado pelo Poder Público.

Por outro lado, preservar, gerir e revitalizar esses espaços residuais urbanos não pode significar simplesmente reintegrá-los à trama produtiva da cidade, ignorando seus valores como espaços indecisos, livres e ambíguos. É preciso, antes de tudo, que a sua conservação não seja conservadora.

Em 2011, recebi o apoio do Programa de Ação Cultural da Secretaria do Estado de Cultura (PROAC), através do edital de "Promoção e estímulo à preservação do patrimônio cultural do Estado", para realizar o projeto de curta-metragem "Farol invisível", sobre o local. O filme foi rodado em 2012 e finalizado somente em 2017, em coprodução da Espaço Líquido com a Preta Portê Filmes.

Ao tentar dar visibilidade ao Farol do Jaguaré, o documentário “Farol Invisível” busca estimular esse tipo de reflexão e porpor novas abordagens para a cidade de São Paulo, questionando a qualidade e a identidade de suas paisagens e ambientes, a segregação social manifesta em seu território e como são formulados os discursos que fabricam uma imagem de cidade que, muitas vezes, nos é alheia.

Embora verdadeiramente nunca tenha funcionado como farol, o monumento carrega em si um devir luminoso: é capaz de apontar novas visões sobre a cidade que temos e aquela que queremos. Não estanque em relação ao passado, sua presença aponta para futuros alternativos, cidades sonhadas, utopias possíveis.

Valorizá-lo em São Paulo pode significar a retomada do horizonte que a metrópole perdeu: uma paisagem fluvial desconhecida dos paulistanos. Mais do que descoberta, essa paisagem merece ser reinventada.

Farol invisívelRio Pinheiros e a Raia da USP, vistos do Farol.
Farol invisívelRemadores praticam o esporte na Raia da USP com Farol ao fundo. (Fotos: Bruna Callegari)


Agradeço a toda equipe que trabalhou comigo no filme e, sobretudo, aos moradores do bairro, que me levaram pelo território e me ensinaram os valores do lugar: Sr. Piraju, Maria Cecília da Silva, João Pierondi, Padre Roberto Grandmaison, Danielle Grossi, Elias Ferreira dos Santos, Luiz Appel, Maria Gema, Eliana Gimenes, Marilene Buzato de Goes, Milton Alves de Andrade, Professora Clais Barbieri Oliveira, Maria Gema, Sr. José Sores. Agradeço ainda a recepção da família de Herique Dumont Villares, urbanista que nos legou o Farol do Jaguaré.

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