Retrato de Dora - Revista da Folha

Retrato de DoraFoto: Inês Bonduki / Folha de S. Paulo

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Ensaio fotográfico

Memória curta

Jovem documentarista resgata histórias da cidade a partir de lendas sobre construções e lembranças de família

REGIANE TEIXEIRA Folha de São Paulo, 21/12/2014

Dora era uma senhora paulistana como muitas outras. Nasceu no Brás, morou na Mooca, trabalhou em uma fábrica de meias e teve um único filho.

De tão comum, o depoimento dela sobre a própria história emociona. Os relatos em áudio estão no documentário "Retrato de Dora" (2014), feito por Bruna Callegari, 31, em homenagem a sua avó paterna, Dora.

No vídeo de 15 minutos (vimeo.com/espacoliquido/retratodedora), disponível on-line até domingo que vem (28), a mulher com forte sotaque da Mooca conta suas histórias ao rever fotos antigas. "Peguei várias imagens, escaneei e levei para ela num tablet. A memória dela era muito boa", conta Bruna. "Passou pouco menos de um ano e ela morreu, aos 90. Não chegou nem a ver nem a ouvir a gravação."

Atualmente, o curta roda por festivais do Brasil e já foi exibido na Espanha e na Índia. "Lá fora, não sei se vão entender expressões da minha avó, como bonita para chuchu', e era chique o desgraçado'", ri Bruna.

Para Leticia Santinon, curadora de cinema do Centro Cultural São Paulo –onde o vídeo foi exibido, no último dia 13, dentro da 5º Semana Paulistana do Curta-Metragem–, o filme agrada por ser muito simples. "A gente não vê a avó nem ela. Não é arriscado, mas é bonito e delicado", afirma. "Ela consegue arrancar 60 anos de história em 15 minutos."

Formada em jornalismo e história, a paulistana agora finaliza um outro projeto. O curta "O Farol Invisível" explora histórias de vizinhos ao farol do Jaguaré, na zona oeste.

O mirante de 28 metros de altura foi construído nos anos 1940 pelo empresário e engenheiro Henrique Dumont Villares (sobrinho e afilhado de Santos Dumont). A ideia original seria a de que o rio Pinheiros fosse usado para navegação e que a torre servisse como instrumento de orientação.

Segundo Bruna, o trabalho fala de memória, imaginação, ambiente e território. "É o resgate de uma imagem fluvial que perdemos em São Paulo e o retrato de como as pessoas inventam e imaginam casos sobre o farol."